Por rev. Leandro Lima
O Brasil experimentou nas últimas décadas um impressionante crescimento da igreja evangélica. Se até bem pouco tempo atrás, a maioria das pessoas nunca tinha pisado em uma igreja, hoje, milhões vão aos cultos todos os Domingos. O movimento evangélico está se tornando algo grande e respeitável influenciando a política, os costumes e até o comércio. Dificilmente poderíamos avaliar o quanto, sem dúvida, isso é positivo e quantas vidas encontraram a paz com Deus por causa dessa abertura que, acreditamos foi realizada pelo Espírito de Deus em nosso país. Por outro lado, o crescimento do número das pessoas que estão decepcionadas com as igrejas, com os pregadores e com tudo aquilo que tem a ver com o mundo evangélico também é assustador. Uma das razões é que não faltam abusos e pessoas más intencionadas que viram nesse crescimento do movimento evangélico um ótimo “negócio” e uma oportunidade de lucro. Esse é um fato que não deve ser ignorado. Mas talvez o problema maior seja justamente o despreparo dos líderes. Bem intencionados, mas terrivelmente equivocados, muitos líderes acabam usurpando um poder espiritual sobre as pessoas e ensinando e praticando coisas absolutamente incompatíveis com a Palavra de Deus. Os resultados estão aí. Decepção, confusão, escândalos e todo tipo de coisas que trazem um enorme prejuízo à causa do Evangelho no Brasil.
Sem dúvida, podemos ver um frescor renovador quando denominações gigantes como a Assembléia de Deus, estão cada vez mais investindo em teologia e literatura de boa qualidade. Isso abre excelentes expectativas para o futuro, mas é preciso colocar o pé no chão e perceber que no presente a situação é bastante crítica. Ondas e mais ondas de pessoas abandonam os espetáculos de cura e prosperidade das igrejas carismáticas absolutamente decepcionadas com Deus, com o coração e os bolsos vazios. Foram estimuladas a acreditar que se dessem aquela oferta, cumprissem mais aquele ritual, fossem até aquele pregador, veriam a situação de sua vida resolvida. Fizeram tudo, mas não funcionou. Por isso, cansaram de religião.
Religião pode ser algo muito cansativo. Jesus mais do que ninguém sabia disso. Certo dia, ele fez um convite um tanto quando inusitado para as pessoas que o ouviam: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. (Mt 11.28-30). Não se engane com as aparências, Jesus não estava fazendo um convite para as pessoas que estivessem cansadas do trabalho depois de uma longa jornada. Ele não as estava chamando para que dessem uma paradinha. Nem estava aconselhando pessoas sobrecarregadas por causa da tarefa de carregar objetos pesados de um lado para o outro para que tomassem um refresco. Ele estava se dirigindo para pessoas que estavam cansadas e sobrecarregadas por causa da religião. Aquelas pessoas estavam cansadas e oprimidas de tanto tentarem agradar a Deus do modo errado. Eram homens e mulheres desfalecendo espiritualmente (e até fisicamente) tentando cumprir uma religião vazia de Deus, mas cheia de regulamentos que os líderes da época tentavam empurrar goela abaixo.
Tentar cumprir requisitos religiosos pode ser algo terrivelmente opressor para a vida das pessoas. Era assim com os judeus. A religião judaica tinha se tornado um terrível peso para o povo que não encontrava nela alívio para o seu sofrimento e muito menos respostas para as suas dúvidas. Aquela religião servia apenas como uma forma de pressionar as pessoas a fazerem aquilo que seus líderes diziam que elas precisavam fazer. Não trazia alívio nem benefício algum para as pessoas, só mais sofrimento e culpa. O único modo de uma religião assim manter seus fiéis é pelo fanatismo.
O judaísmo dos dias de Jesus havia distorcido a bela e revigorante religião do Antigo Testamento. A religião herdada de Abraão e renovada por Moisés estava longe de ser opressora, antes de fato era uma religião libertadora1 . Para Abraão ela abriu novos horizontes do mundo e da existência. Para Moisés, ela trouxe libertação da escravidão e da terrível mesmice da idolatria. Até mesmo antes deles, para Adão, ela mostrou que o Deus verdadeiro não é aquele que fica passivamente esperando que suas criaturas o agradem por seus próprios esforços, mas é o Deus que deixa os céus vai à busca de sua criatura perdida e ferida, para resgatá-la e trazê-la novamente a um estágio de pleno relacionamento com Ele. Mas nos dias de Jesus, a deturpação daquela religião trazia cansaço e sobrecarga para o povo. Apesar de todo o esforço das massas em obedecer a o que os líderes mandavam, elas não conseguiam estar em paz com Deus.
Em sintonia com isso, podemos dizer que há dois tipos de cristianismo opressor em nossos dias: o cristianismo da troca e o cristianismo da troça, com o perdão do trocadilho. O primeiro é o do tipo legalista que vai desde aquelas igrejas que insistem em usos e costumes como essenciais para a vida cristã até os mais modernos e onipresentes tele-evangelistas que estão sempre dizendo que as pessoas devem fazer algum tipo de “negócio” com Deus para serem abençoadas (a palavra é “prova”). O segundo é o do tipo liberal que julga ter alcançado um nível de conhecimento superior e, por isso, ridiculariza aqueles que considera inferiores e apegados às coisas insignificantes da fé. Esses últimos vivem liberalmente sem impor limites aos seus próprios pecados, confiando num Deus amoroso que não vai condená-los por nada. O primeiro tipo cria pessoas cansadas e sobrecarregadas por causa dos fardos dos legalismos, que geralmente os líderes impõem sobre os seguidores, mas a exemplo dos fariseus, nem com um dedo o querem mover. O segundo tipo cria pessoas irônicas e cínicas, mas também cansadas e esgotadas por carregar seus próprios pecados tentando justificá-los para si mesmas, vivendo frequentemente num jugo desigual com o mundo pecaminoso. Isso nos mostra que o “cristianismo” de nossos dias pode ser o último lugar onde alguém possa encontrar “descanso para sua alma”.
As duas expressões que Jesus utilizou para descrever a situação das pessoas em relação à religião são muito interessantes. Cansado tem a idéia de trabalhar até o ponto da extrema exaustão. Sobrecarregado reforça a idéia de cansaço, mas acrescenta que esse cansaço já vem há muito tempo, como alguém que está há muito tempo carregando um fardo pesadíssimo. De fato, aquelas pessoas estavam há muito tempo carregando o terrível fardo da religião centrada no “eu”.
Jesus percebeu que o caminho dos escribas e fariseus além de ser absolutamente inútil era cansativo demais. Há pessoas demais hoje em dia trilhando esse mesmo caminho. Continuam pensando que podem agradar a Deus através de seus sacrifícios pessoais e de suas boas obras. Olhe para essas pessoas que vão às chamadas romarias, elas caminham longas distâncias, sobem incontáveis degraus, deixam de comer e beber, se sacrificam para agradar aos santos a quem são devotos, mas só conseguem mais canseira. Evangélicos também sabem fazer isso. Alguns freqüentam nove semanas ininterruptas de oração para conquistar a bênção tão almejada. Outros depositam todo o salário do mês, vendem seus carros e casas para entregar o dinheiro a líderes pouco confiáveis, porque desejam agradar a Deus, e conseguir algo mais dele. Que canseira! Mas isso não é cansativo apenas para os corpos, o que é pior é que é cansativo para as almas. Lá no fundo, essas práticas jamais conseguem infundir a verdadeira paz de espírito. Estão equivocadas porque falham em entender Deus e sua graça.
Evangélicos mais tradicionais, muitas vezes, criam uma religião cansativa também. São tantas reuniões, tantas atas, tantos departamentos, tantos documentos, tantas atividades! O mais triste é que toda essa movimentação, frequentemente, é um fim em si mesmo. O intuito é apenas “manutenção” de um sistema morto. Não contribui para a evangelização, não contribui para o crescimento espiritual, antes contribui apenas para que os crentes fiquem cada vez mais burocratizados e apegados às coisas secundárias e não às pessoas. Guardar tradições pode se tornar algo muito cansativo, principalmente quando ninguém mais sabe para que as tradições servem. Quando você olha para uma igreja e vê que as pessoas lá estão apegadas demais aos costumes, às tradições, aos objetos, aos utensílios, etc., é porque a graça e a misericórdia está esquecida. E quando a graça e a misericórdia são esquecidas a alegria vai embora. Só resta fanatismo. E fanatismo só produz tristeza e cansaço.
Entendendo que aquelas pessoas estavam cansadas de religião, Jesus fez o convite da graça. Ele disse: “vinde a mim”. MacArthur notou que “salvação não é um credo, uma igreja, um ritual, um pastor, um sacerdote, ou qualquer outra coisa humana”2 . Salvação é ouvir um convite e aceitá-lo. É ouvir o criador e redentor chamando. O convite soa como o de um pai chamando o filhinho cansado para descansar em seu colo.
Jesus chamou as pessoas para si mesmo. O “vinde a mim” de Jesus está em contraste com o “faça isso” dos fariseus e escribas. Ao invés de chamar as pessoas para a observância de um padrão de comportamento, Jesus as está chamando para um relacionamento. A graça pressupõe relacionamento. Era assim no Antigo Testamento em relação à Aliança divina. O meio de salvação através da Aliança significava um profundo relacionamento com Deus, como o de Enoque que “andou” com Deus (Gn 5.24), o de Abraão que foi chamado “amigo de Deus” (2Cr 20.7; Tg 2.23), ou o de Davi que ficou conhecido como o homem segundo o coração de Deus (At 13.22).
Deus sempre quis lidar com os homens sob um pacto, um acordo entre duas partes. “Eu serei o seu Deus e você será o meu povo”, Deus falou para Israel (Jr 32.38, Ez 14.11, Hb 8.10). “Eu sou o mestre e vocês são meus discípulos”, Jesus falou para os novos convertidos (Jo 13.13, Mt 10.24). Nesse relacionamento é que podemos aprender a viver uma vida significativa. Jesus quer nos ensinar o segredo de uma vida plena, que somente pode ser desfrutada na presença dele, em contínuo crescimento, aprendizado e amor. Por isso, a religião das “provas”, de barganhas e negócios com Deus não tem a menor chance. O liberalismo moral igualmente está condenado. Jesus quer relacionamento. É para isso que ele está nos chamando. Para uma vida de fé e alegria em sua presença.
1 É claro que a religião do Antigo Testamento deve ser vista em se aspecto progressivo. Ela não era a revelação final sobre a vontade e os propósitos de Deus, pelo contrário, sob muitos aspectos apenas o início dessas coisas. Portanto, não se pode olhar para o Antigo Testamento sem se esquecer que sua finalidade principal é apontar para Cristo e revelar a grandiosidade de sua missão dentro do eterno plano de Deus.
2 John F. MacArthur, The MacArthur New Testament Commentary. Chicago: Moody Press, 1983. Mt 11.28.
Fonte: Blog da IP Santo Amaro
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