quarta-feira, 8 de abril de 2009

Evangelho cantado

Como é típico da idade, na adolescência questionei a forma de culto da minha igreja, que às vezes lembrava uma liturgia ("Batista não tem liturgia, tem ordem de culto", já me dizia meu amigo e pr. Lucas Barbosa), devido ao seu formato rígido. Na minha imberbe análise das coisas, achava que o problema estava nos hinos, cânticos entoados há décadas, ou séculos, pelas igrejas protestantes. Especialmente, por serem originários da cultura anglo-saxônica, parecia-me, naquele esquerdismo juvenil, serem os responsáveis por aquele desagrado.

Alguns anos depois, mais maduro, descobri quão redondamente enganado eu estava! Quantas vezes já me vi contrito ou mesmo emocionado diante de tão profundas mensagens contidas na maioria deles. Uma riqueza teológica, uma apresentação correta do Evangelho e uma adoração genuína, como pouco se vê nos cânticos mais atuais.

Não quer dizer que eu não ache importante termos cânticos, digamos, atuais, na adoração comunitária. Ou que uma valorização da musicalidade brasileira seja desnecessária, como já fazia o pioneiro grupo VPC - e alguns remanescentes continuam a criar. Mas beleza poética daqueles hinos ditos tradicionais é muitas vezes difícil de ser igualada - não digo superada, pois poesia e música, como artes criadas por Deus, são eternas.

Um desses é "Fonte és Tu de toda bênção", cujo título original é "Come Thou Font of Every Blessing". Escrito em 1758 pelo inglês Robert Robinson, é um cântico de adoração ao SENHOR por sua graça salvadora, que nos alcança, nos justifica do pecado em Cristo Jesus e sustenta a cada dia. A versão presente na maioria dos hinários protestantes é esta:

Come Thou Fount of every blessing
Tune my heart to sing Thy grace;

Streams of mercy, never ceasing,

Call for songs of loudest praise

Teach me some melodious sonnet,

Sung by flaming tongues above.

Praise the mount! I'm fixed upon it,

Mount of God's unchanging love.


Here I raise my Ebenezer;
Hither by Thy help I'm come;

And I hope, by Thy good pleasure,

Safely to arrive at home.

Jesus sought me when a stranger,

Wandering from the fold of God;

He, to rescue me from danger,

Interposed His precious blood.


O to grace how great a debtor

Daily I'm constrained to be!

Let that grace now like a fetter,

Bind my wandering heart to Thee.

Prone to wander, Lord, I feel it,

Prone to leave the God I love;

Here's my heart, O take and seal it,

Seal it for Thy courts above.


Foi traduzido para o português em 1881, por Justus Henry Nelson, pastor metodista que foi missionário no Brasil no século XIX. Ficou assim:

Fonte és Tu de toda bênção, vem o canto me inspirar
A misericórdia Tua quero em alto som louvar
Ó ensina o novo canto dos remidos lá nos céus
Ao Teu servo e ao povo santo, p’ra louvarmos-Te, Bom Deus

Cá meu Ebenézer ergo*, pois Jesus me socorreu;
E, por Sua graça, espero transportar-me para o céu.
Eu, perdido, procurou-me, longe do meu Deus, sem luz;
Maculado e vil, lavou-me com Seu sangue o bom Jesus.

Devedor à Tua Graça cada dia e hora sou
Teu cuidado sempre faça com que eu ame a Ti, Senhor
O meu ser é vacilante, toma-o, prende-o com amor
Para que eu a todo instante glorifique a Ti, Senhor.

* Em alguns hinários: Ao Senhor eu agradeço.

É claro que a tradução não é literal, para que a métrica fosse mantida, mas ainda assim creio que o conteúdo foi mantido, aquilo que o autor quis expressar. Enquanto não acho uma versão em português, compartilho a 1ª e 3ª estrofes entoadas pelo Jars of Clay - uma pena deixarem a 2ª estrofe de fora, pois contém o a inspiração central do autor, em 1 Sm. 7:12, como adoração pessoal ao SENHOR que o salvou.


3 comentários:

  1. Estás numa onda de produção agora.
    Ficou muito bom o novo layout, parabéns.
    Sobre o texto, a liturgia e ordem do culto, hoje é marcada pela filosofia de líderes e não um padrão pautado numa reflexão teológica (digo isso em relação as igrejas Batistas), infelizmente, temos dado muita vazão a um emocionalismo superficial, que não representa o direcionamento a uma reflexão contemplativa de um Deus que é profundo. O cenário musical representa essa superficialidade, antes, o que se valia era a profundidade da poesia e sua mensagem, hoje é puramente focada no mercado, e isso não corresponde apenas nas músicas, mas no que se fala nos púltitos de nossas igrejas.

    Abração cara.

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  2. me basta comentar que gosto muito deste hino! outra hora visito teu blog com mais calma, mas jah valeu a visita...

    forte abraço, brother!!!!

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  3. Amigos, obrigado pela participação!
    Thiago, antigamente eu achava que o problema era música, mas música não é problema. Os problemas são, mesmo, esses que vc falou, o personalismo, o antropocentrismo no culto cristão, tudo muito horizontal, onde o centro deveria ser um só... e a direção vertical.

    André, tu amas hinos, canções, toadas etc... rs... valeu te "rever"!

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